segunda-feira, maio 27, 2013

Não valorizo o efémero
nem sinto falta das coisas simples
nem vivo dos pormenores do que espero
nem me sacio com as minuências que recheiam o tempo.

Trago as dúvidas de memória
mas da mão subtil que acaricia o peito
e do beijo cruzado na fome da espera
e de cada sorriso que adormece apaziguado
e do sussurro gemido ao âmago do desejo
e do amigo que te empurra para fora do desespero
e de cada palavra abandonada à solta num caderno
eu assomo ao futuro com o tamanho dos Homens
porque o justo é que o breve seja eterno
e que até um olhar seja elevado a património.


segunda-feira, maio 13, 2013

Eu faço esse caminho com a calma que posso
eu faço a cama e desfaço o dia a cada passo
eu faço a espera do que a noite traz
e traz sempre
o sorriso que pensa o que faço
o desejo que é meu e por mim
o meteoro do beijo que promete beijos sempre
eu prometo que faço se prometi
ela promete que faz o que promete
eu não posso ter calma na espera
eu que nem posso prometer nem passo
eu faço este caminho que o tempo faz
eu desfaço a cama para ela chegar.

Soneto

De músculo e amor despe-se o muro
que traz à pele a palavra.
Dê-se sossego e paz à terra onde se lavra
o que antes era amputado ao futuro.

De músculo e amor renasce maduro
o caminho que na língua encrava.
Sair não é fugir se a dinâmica desbrava
o que faz um poeta brilhar no escuro.

Não percam nunca o momento
em que a saudade reflete outra imagem -
querer de músculo e amor quer o vento.

Querer sair é o músculo da viagem
em que o amor supera um oceano de lamento -
e o amor é o oceano da minha outra margem.

terça-feira, maio 07, 2013

Diálogos Meridianos

A nossa sede nas cordas do silêncio -
música de nós partilhada entre ausências -
fixa uma rotação verde que prendo na ponta dos dedos.

- Não acelero massa noite dentro para ficar aqui.

Acaricio esperanças na rede que nos transporta -
emaranhado de viagens sem bolso -
e toco um mesmo ar sob um mesmo lençol de espera.

- Não escrevo para manter a fome à distância.

A nossa sede rouca é adiada -
um beijo zunido no oceano -
para apurar a voz num palco erguido contra o segredo.

- Não canto para ver passar o vento.

Amo a noite em que te encontro -
sonolento elmo contra o quotidiano -
nua de tempo na imagem que tento escutar.

- Não existo para ser escravo de meridianos.
Há-de haver um lograr
onde jogre
uma ausência
que presume
o que parece
no que de fato
pode padecer.

19-4